Deus criou o homem... o Homem criou o automóvel.

Deus criou o homem... o Homem criou o automóvel! A reverentíssima divindade decidiu dar-nos a escolher entre o bem e o mal, entre invadir e não invadir o Iraque, entre cobiçar ou não cobiçar os poços de petróleo, mas os fabricantes de automóveis foram bem mais longe. À imagem de Deus, pensaram na nossa liberdade de aceleras e decidiram então, com o aval dos governantes, darem-nos a escolher se nos queremos estampar a 120 ou 220 km por hora. Não percebo porque é que não podendo andar em Portugal a mais de uns 120 kilometros por hora, os veículos continuam a desafiar a nossa generosa tendência para nos ultrapassarmos em tudo o que pudermos. Foi com rapidez que se criou o boato-mediático do arrastão, foi também em grande velocidade que subimos até aos 21% de Iva e mais velozes ainda hão-de ser os polícias na caça aos prevaricadores do asfalto, que agora, até deve dar gosto cobrar tamanhas multas. O prestígio aumenta quando se tem o poder de fazer o contribuinte engulir em seco e garantidamente, a profissão de agente da lei deverá ser nas próximas décadas a mais concorrida, por ser a única forma garantida de escapar às "gastronómicas sanções" aplicadas (sim porque conhecendo Portugal, isto há-de ser repasto para alguns). Enquanto se for agente da lei não se é agente da infracção.Porque é que não vivemos num país como os Estados Unidos da América onde o estado afasta do consumidor as dúvidas existenciais e a angústia da escolha? Hoje os fumadores já não têm de se preocupar, já não têm de escolher, basta-lhes não serem fumadores e todos as suas preocupações se apagam num cinzeiro. E a nós? Porque é que não nos metem a todos a andar a 120? Assim estaríamos menos sujeitos a cruzarmo-nos com um polícia de terminal multibanco em punho, qual magnum 44 em tempos de Faroest, apontada ao fora da lei por excesso de cavalos que custam a refrear quando as travessias são longas e a vontade de desperdiçar tempo dentro de um automóvel é curta.Talvez se tivéssemos todos um limitador de velocidade não precisássemos de multas tão excessivas e poderíamos até mesmo permitir a reorganização da polícia devolvendo-lhe outras esperadas funções de segurança pública.Claro que este texto não comunga de pinga de imparcialidade, dado me ter sido fanada/furtada, depende da perspectiva, uma companheira que estava ao meu serviço desde os 16 anos, uma máquina fotográfica que se encontrava convenientemente à espera de ser levada do meu porta luvas do meu estacionado veículo na Expo, mesmo frente ao edifício da Vodafone.Mas afinal para que fui eu à polícia? Já sei! Para desabafar! E claro, para fazer parte das estatísticas que nem toda a gente tem perfil para aparecer nas colunas sociais. É só por isto que defendo o limitador de velocidade. Assim libertávamos algumas patrulhas das estradas,se não se importarem, para vigiarem os larápios de máquinas fotográficas com idade para serem respeitadas, em vez de me mandarem a mim, artista da investigação policial a solo, ir procurá-la à Feira da Ladra.Sei que amaldiçoaria todos os dias o limitador e começaria a pedir a revisão para aumento de alguns dos limites máximos de velocidade, mas de qualquer das formas, serve este pormenor opinativo para salientar os contra-sensos da racionalíssima sociedade onde nos movimentamos.Este texto foi escrito a 50 à hora à passagem pelas localidades e não a mais do que 115 km por hora em circuito de auto-estrada, pelo que, asseguro desde já, não ter cometido quaisquer infracções na condução deste veículo de opinião.

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