Terça-feira, Julho 12, 2005

Lavar ou não lavar as mãos após o WC, nós em questão?



Segundo os mais recentes estudos dedicados à humana fauna portuguesa, descobriu-se que somos muito pouco dados a preocupações higiénicas pós- período mictório. Não há dúvida que após tal estudo é incontestável a falta de empenho nacional em prol da manutenção manual da limpeza das mãos. Contudo, quaisquer ilações apressadas que se possam avançar, como a falta de asseio terceiroimundista dos portugueses, pode revelar-se uma redutora traição à pátria, porque a única coisa que os portugueses estão a preparar em época de depressão generalizada é somente um atentado contra a própria vida! Um suicídio colectivo organizado de forma inconsciente de cada vez que um português se dirige à casa de banho. É que se não lavamos as mãos, mais do que chamarem-nos leitões javardos, isto deve ter um significado maior que nos anda a escapar, e com a depressão financeiro-psicológica na ordem do dia, semana, mês, ano e sabe-se lá até interminavelmente quando, deixámos de ser a geração rasca para passarmos a ser a geração enrascada, (eu escapei à rasca à geração rasca, mas agora estou tão enrascada quanto os que já foram rascas)! É por isso que também estou seriamente a pensar em deixar de lavar as mãos a ver se me fino repentinamente de forma indolor graças a um insuspeito agente desconhecido, tal micróbio malévolo que travou conhecimento com o meu ser macroscópico e me aniquilou numa cruzada não religiosa com fim a estancar a dor à qual estamos indissociavelmente ligados de cada vez que ligo a televisão e dou de caras com algum político que me põe a pensar ai ai ai o que vai ser de mim?

Mas regressando em força à teoria das mãos sujas, nova encenação sartreana com os actores da série Morangos com Açúcar, podemos ter qualquer coisa de felinos em nós que nos afasta dos alguidares, lavatórios e lava-loiças, com cura temporária verificada em período de férias dada a extensão terapêutica da nossa vastíssima costa que se estende em postal publicitário do qual felizmente, não fazem parte os portugueses a seguir a uma ida ao WC.

Mãos sujas? Não devia ser notícia, já estamos mais do que habituados, quando estamos metidos num país de sacos azuis, corrupção rosa activa com passivo, laranja passiva que já esteve no activo e um sem número de novas cores para pintar um país que apesar de luminoso, só acentua as cores da burla, peculato, lenocínio, e outras novas palavras que ainda surpreendem alguns ouvidos virgens e que passam a fazer parte do léxico comum de tão comum que se tornaram e depois, quem é que tem a má reputação de não lavar as mãos? Cosmopolitas, vilões e aldeões, tudo no mesmo saco, já agora azul, que é a cor da União? Europeia.

Se calhar no meio de tanta maledicência tudo isto não passa de um espontâneo movimento cívico onde a consciência individual ditou a cada um a poupança de água em época de seca, parecendo assim, e já sabemos que as aparências enganam, que somos um povo sem tendências assépticas, quando no fundo até pode ser mera manifestação de um pululante coração ambientalista.

1 Comments:

Blogger Letras Afundadas S.A. said...

De acordo com um velho preceito budista: "Tudo é Deus." - Imundice inclúida. A questão que se coloca a todos os utilizadores de uma casa de banho será, portanto, uma questão moral que contempla a sacralidade dos micróbios, dos fungos, dos virus, entre outros agentes de deus ao serviço da conspurcação. Assim, cada entrada na casa de banho deverá ser precedida pela questão - "o que devo fazer."

7:03 PM  

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